Domingo, Outubro 30, 2005


Fonte: Corbis


Dentre todas as viagens, a mais supreendente e fascinante é a que
empreendemos ao interior de nós mesmos. No fundo da alma residem
todas as verdades que precisamos para transformar a vida em algo
mais feliz e justo. E como toda aventura, exige coragem e boa disposição.

Precipitado por Nuvem
Nebulosas:

Quinta-feira, Outubro 20, 2005




Agir com equilíbrio não representa grande coisa do ponto de vista da forma,
mas é de grande valor sob a perspectiva do espírito. O equilíbrio não produz
fatos que mereçam notícias em jornais, contudo traz harmonia a um mundo
tomado pela luta do mal contra o mal. Assim, todas as pessoas dotadas de
boa vontade que testemunhem a vilania, devem abster-se de reagir, evitando
dessa forma alimentá-la. Com sabedoria e presença de espírito podem fazer
pequenas coisas como evitar más companhias, maus pensamentos,
comportamentos pervertidos, limitando-se a limpar suas casas e lugares de
trabalho, arrumando os pequenos espaços de terra para implantar neles lindos
jardins. Isso, que parece nada, é, no espírito, um pouco de eternidade.

Precipitado por Nuvem
Nebulosas:

Terça-feira, Outubro 18, 2005




Instrumento de busca


Meu corpo-copo se encheu de vida
e o vinho-vida de meu corpo-copo,
trasborda em alegria de manchas vermelhas,
estampas de linho escuro em linho claro.

Meus pés levados por estradas duras
são ferramentas rudes de uma grande busca:
cada pé, a pá de descarnar a terra,
tentando viajar seu sangue quente.

E as pernas, garças, quase alçando vôo
levando-me além do mundo turvo:
à procura de amor, em cada estrada;
à procura de mim, por toda a vida.

Meu tronco de bastão encastoado,
essa avenida onde desfilam meus suores,
onde penetram frios e calores,
onde equilibro taras turbulentas.

Meus braços longos são mares bravios
espumando em suas barras, minhas mãos,
que tentam agarrar, no frêmito das ondas,
os leitos de areia para se deitar.

Pescoço quase imóvel sobre o corpo,
no qual transitam forças da cabeça,
umedecendo o corpo e os quatro membros
da água abençoada de meus sonhos.

Meus muitos sentidos em assimetria:
janelas me dizendo o mundo todo,
trazendo para o rosto, em linhas curvas,
colinas de alegria e vales de desgosto.

Viagem de pinheiro, anseio para o alto;
da terra para o céu foi destinada:
germina os pés, floresce na cabeça --
cabaçada de sementes -- encontro de espirais.


Ligia Batista

Precipitado por Nuvem
Nebulosas:

Segunda-feira, Outubro 10, 2005




Ver é saber, e saber é tornar-se responsável por alguma coisa a respeito.
Não dá para viver sem responsabilidades, não porque se deva viver sob o
peso delas, mas porque ser responsável é responder ao universo.

Precipitado por Nuvem
Nebulosas:

Domingo, Outubro 09, 2005

"A felicidade não é uma estação na qual chegaremos,
mas sim uma forma de viajar."
(Margaret Lee Runbeck)


Não é preciso buscar a felicidade.
Ela está aqui, nos momentos vividos.
Basta percebê-los!



Precipitado por Nuvem
Nebulosas:

Terça-feira, Outubro 04, 2005




São Francisco de Assis



De onde vem o fascínio que São Francisco exerceu sobre seu tempo e que atinge todos os tempos posteriores até os dias atuais? Certamente são muitos fatores. Mas o principal deles é o resgate dos direitos do coração, a centralidade do sentimento e a importância da ternura nas relações humanas e cósmicas. Criou uma síntese que se havia perdido no cristianismo: o encontro com D'us, com Cristo e com o Espírito na natureza e, em conseqüência, a descoberta da imensa fraternidade e sororidade cósmicas e a preservação da inocência como claridade infantil na idade adulta que devolve frescor, pureza e encantamento à existência na Terra.

São Francisco estabelecia uma união amigável com todas as coisas: enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o Sol, contemplava a Lua e dirigia seu olhar para as estrelas e o firmamento. Quando encontrava flores, pregava-lhes como se fossem dotadas de inteligência e as convidava a louvar ao Senhor. Fazia-o com terníssima e comovedora candura; exortava à gratidão os trigais e os vinhedos, as pedras e as selvas, a planura dos campos e as correntezas dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar, o vento. Finalmente, dava o doce nome de irmãs e irmãos a todas as criaturas. Andava com reverência sobre as pedras em atenção Àquele que a si mesmo se havia chamado de pedra; recolhia dos caminhos as lesmas para não serem pisadas pelos homens, dava mel e vinho às abelhas no inverno para que não morressem de frio e de fome; abraçava com o mesmo carinho o sultão Kamil em Damieta, o leproso que gritava junto à estrada em Spoleto e o lobo que ameaçava os cidadãos em Gubbio.

O universo franciscano nunca é morto nem as coisas estão jogadas aí, ao alcance da mão possessora do ser humano, ou justapostas uma ao lado da outra, sem interconexões entre elas. Tudo compõe uma grandiosa sinfonia cujo maestro é o próprio Criador. Todas são animadas e personalizadas; por intuição descobriu o que sabemos atualmente por via empírica, que todos os viventes somos irmãos e irmãs por possuirmos o mesmo código genético. Francisco experimentou essa consangüinidade. Tal postura permite a convivência com todas as diversidades. Ela sintoniza com a lógica que preside as associações e as inter-relações que vigoram na natureza incluindo os seres mais frágeis. Assim, a democracia cósmica se transforma em democracia humana e espiritual e, a ecologia (ciência do bem viver na casa planetária comum) transforma-se em ecosofia (sabedoria do bem viver entre todos os existentes).

São Francisco foi um genial poeta. Não um poeta romântico mas ontológico e essencial, capaz de captar a mensagem sacramental que ecoa de todas as coisas. Mas além disso, outro fator responsável pela confraternização com todos os elementos foi a radical pobreza. A pobreza, assim como a entende São Francisco, não reside somente em não ter coisas, porque o ser humano sempre tem seu corpo, sua mente, sua roupa, seu estar-no-mundo. Pobreza essencial é um modo de ser pelo qual homem/mulher deixam as coisas serem; renunciam a dominá-las, a submetê-las e a serem objeto da vontade de poder humana. Abdica de estar sobre elas para colocar-se ao pé delas. Tal atitude exige uma ascese imensa de despojamento do instinto de posse e de satisfação do desejo. Quanto mais radical, mais a pobreza aproxima o ser humano da realidade nua e crua; mais lhe permite uma experiência global e uma comunhão sem distância, no respeito e na reverência da alteridade e da diferença. A fraternidade universal resulta desta prática de pobreza essencial.

Após um longo exercício de busca da pobreza essencial, nasceu no coração de São Francisco, o paraíso perdido, paraíso terreno que deve ser construído pela história da humildade, da solidariedade, do entranhado amor a tudo e a todos. Ele mostrou a possibilidade e o seu caminho de realização.


Leonardo Boff

Precipitado por Nuvem
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