Terça-feira, Novembro 30, 2004
Manifestar a luz
É tempo de se manifestar majestade através da prática das virtudes
eternas. A honestidade, por exemplo, pode ter caído em desuso,
porém, mesmo assim continua sendo a única proteção contra qualquer
perigo, mesmo que não o pareça.
Para merecermos a atenção dos anjos, devemos nós mesmos nos
assemelhar a eles, protegendo nossos semelhantes ao dirigir o carro,
ao andar pelas ruas, ao fazer negócios, etc. Até mesmo quando
pensamos estar sós, somos capazes de ajudar nossa espécie evitando
pensamentos negativos e desenvolvendo os melhores possíveis a
respeito da vida. A luz está no interior de cada um de nós, mas
precisamos decidir explorar esse canal. A oportunidade é agora.
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Quinta-feira, Novembro 25, 2004
Le Pélican
Le capitaine Jonathan,
Étant âgé de dix-huit ans,
Capture un jour un pélican
Dans une île d'Extrême-Orient.
Le pélican de Jonathan,
Au matin, pond un oeuf tout blanc
Et il sort un pélican
Lui ressemblant étonnamment.
Et ce deuxième pélican
Pond, à son tour, un oeuf tout blanc
D'où sort, inévitablement,
Un autre qui en fait autant,
Cela peut durer pendant très longtemps
Si l'on ne fait pas d'omelette avant.
O Pelicano
O capitão Jonathan
estando com a idade de dezoito anos,
captura um dia um pelicano
numa ilha do Extremo-Oriente.
O pelicano de Jonathan,
de manhã, põe um ovo inteiramente branco
e daí sai um pelicano
espantosamente parecido com ele.
E esse segundo pelicano
por sua vez põe um ovo inteiramente branco
de onde sai, inevitavelmente
um outro que faz o mesmo.
Isso pode persistir por muito tempo
se antes não fizermos uma omelete.
Robert Desnos
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Segunda-feira, Novembro 22, 2004
Soltando as amarras
por Soninha Francine
Acordo. Queria dormir mais. Se seis horas não foram suficientes, por que acredito que 15 minutos vão resolver meu problema? É puro apego -- à cama quentinha, à escuridão do quarto, ao aconchego do marido e da filha, que se enfiou debaixo das cobertas pouco antes de o despertador tocar... Não quero abrir mão de nada disso. Mesmo sabendo que é inevitável, mesmo lembrando que hoje mesmo eu vou estar de volta à minha cama quentinha, sofro para dizer "adeus".
Esse é o primeiro apego do dia. Tenho dificuldade para tirar a roupa no banheiro gelado. Depois, preciso de coragem para sair do chuveiro, que estava tão gostoso. Levantar da mesa do café é outro esforço: um pedaço mais de pão com manteiga, outra lasquinha de bolo de cenoura. O jornal do dia tem artigos, fotos, notícias e quadrinhos que eu vou querer guardar -- reservo para recortar mais tarde. Finalmente, com certa preguiça, me despeço da família (seria tão bom ficar mais um pouquinho em casa!) e vou trabalhar.
Nas horas seguintes, resistirei a várias outras separações, grandes e pequenas: é uma pena desligar o rádio do carro bem na hora em que está tocando uma música legal; colegas se despedem e deixam saudades; as flores que eram tão bonitas não têm mais viço e precisam ir para o lixo. São muitas as amarras que me prendem às coisas. E o que é pior: nem tudo a que me agarro é agradável... Pensamentos, por exemplo: não consigo deixar de me torturar por um erro cometido, de repetir para mim mesma uma crítica injusta, de remoer uma mágoa qualquer.
Apego é um dos maiores motivos de sofrimento, mas só agora percebo isso. Eu achava que não. Curtia meu apego e até me orgulhava dele. Fazia questão de cultivar a dor das separações: voltava de férias e passava dias, perdida, com a cabeça longe. Ficava revendo os momentos mágicos e morrendo de saudade. Toda música, toda frase, toda cena me lembrava os dias vividos. O presente era uma tortura, a evocar o passado. E eu pensava que era assim que tinha de ser.
É muito fácil perceber que o apego é inútil. Nada, nadinha é nosso para sempre. Tudo nos escorre pelos dedos. A infância, as férias, os brinquedos favoritos, livros novos, amigos, namorados, pais, filhos, animais de estimação. E todas as sensações e pensamentos -- o calor aconchegante, o friozinho revigorante, o sabor de uma sobremesa, a paixão pelo noivo namorado -- todos mudarão, passarão.
Melhorei em relação ao meu apego. Já não fico desesperada no último dia de férias -- ao contrário: ele é tão feliz quanto o primeiro. Não me incomodo tanto quando algum objeto de estimação se quebra: não era eterno mesmo. Não sinto um aperto no peito quando penso nas filhas crescendo, quando me despeço de um amigo ou quando saio de algum lugar sabendo que posso nunca mais voltar.
É bom, muito bom ser feliz no momento; é um alívio deixar que tudo siga seu rumo. Eu ainda tenho algumas dificuldades com a cama quentinha, o chuveiro gostoso e os recortes do jornal, mas, apesar desses barbantinhos, já experimentei a deliciosa liberdade de outras amarras partidas. E recomendo.
............
Nos sentimos feitos para a eternidade, porém, sofremos porque tudo é transitório. O misterioso tempo que experimentamos é feito de eternidade, e por isso, pressentimos sua realidade, mas a vivência cotidiana é composta de milhares de assuntos diferentes e, como bem o disse Buda, todas as coisas compostas são transitórias. Contudo, deve haver alguma forma de atualizar essa eternidade, já que na mente criamos desejos, e todos os desejos, têm por destino realizar-se. No amor, por exemplo, as pessoas vão e vêm, porém o amor foi e sempre será o mesmo, em todos os relacionamentos da história e do universo. Buscar a eternidade oculta nas coisas impermanentes é uma tarefa digna da natureza humana.
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Quarta-feira, Novembro 17, 2004
A paz vem de dentro da alma quando
percebemos nossa unidade com o universo.
Black Elk
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Terça-feira, Novembro 09, 2004
Mulher...
Nasci como quem não podia,
não devia ou não estaria...
Rompi todos invólucros e me libertei!
Sou mulher
e
posso ser rocha,
metal,
seda,
ternura,
ou
ira,
depende do momento ...
Sou reverso,
estou nas trevas quando me convém,
mas posso brilhar nesta escuridão...
Não me castro ,
sempre dispo de seitas
que me ofuscam,
tenho luz própria
e a nada me oponho...
Sou gozos quando oportunos me são,
sinais normais escorrem de mim,
só meus...
Posso ser instinto,
ninfa perfeita,
feiticeira,
prostituta,
mãe,
amiga,
namorada,
menina,
mas essencialmente mulher,
pele,
cabelos,
boca,
seios,
clítoris,
libido,
prazeres que não divido...
Posso me dar inteira,
insaciável
e percorrer anatomias que não sejam minhas,
fazer escravos
ser abelha rainha...
Não,
não me façam deusa,
nem costela de adão,
minha maior magia
é
ser
sempre
e somente mulher...
Cida Souza
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Quinta-feira, Novembro 04, 2004
Num sufocante dia de verão, um velhinho desceu a um porão fresco em busca de algum refrigerante. No momento em que entrava, a escuridão o impediu de enxergar. "Não se preocupe", disse outro homem no porão. "É natural que, quando você sai da claridade para a escuridão, fique impossibilitado de enxergar. Mas daqui a pouco, seus olhos vão se acostumar a ela, e você mal perceberá que está no escuro." "Meu caro amigo", respondeu o idoso, virando-se para sair: "É exatamente disso que tenho medo. A escuridão é escuridão, o perigo é você se convencer de que ela é luz!"
Shmuel Lemle
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Quarta-feira, Novembro 03, 2004
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio
com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o
suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas
folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se
enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra,
a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais querer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso,
deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja
as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida
começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue
de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos,
e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.
Julio Cortázar
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