Domingo, Agosto 29, 2004
Não vês que somos viajantes? E tu me perguntas: que é viajar? Eu respondo com uma palavra: é avançar. Experimente isso em ti. Que sempre te desagrade ser o que és para que sejas um dia aquilo que ainda não és.
Santo Agostinho
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Nebulosas:
Sexta-feira, Agosto 27, 2004
Estrela-do-mar
Deram-me, quando criança,
uma estrela-do-mar,
e eu guardei dela a esperança
de durar
seca, ao longe, arrancada
também ao meu país
natural, a raiz
apenas, sem mais nada
que houvesse sido dela.
E vim parar aqui,
uma estrela
do mar, longe de tudo o que perdi.
Mas não deu certo:
a coisa inanimada,
longe ou perto,
tardinha ou madrugada,
é sempre igual a si.
A criatura não.
O ser é uma emoção.
Eu sou feita de tudo o que senti.
Bruno Tolentino
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Nebulosas:
Terça-feira, Agosto 24, 2004
O mar às portas
Estar aqui é como entrar no Tempo,
regressar ao seu ventre.
O mar é o som
e me devolve ao espaço em que me sonho
dançarina em seus prados de azulejo.
Em mim o vejo
no exato átimo em que ao abrir a porta
em meu olhar ancorou, mas tão relâmpago,
inesperado e espanto.
Ó mar visível
no horizonte irreal, aceso e enorme,
já prestes a invadir-me a casa, o corpo
em assalto e em sobressalto, além do porto.
Maria da Paz R. Dantas
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Nebulosas:
Sábado, Agosto 21, 2004
Femina
Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.
Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.
Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.
Nem aqueles lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos,
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.
Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.
Soares Feitosa
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Quinta-feira, Agosto 19, 2004
Força e Poder
O poder verdadeiro age em silêncio e com modéstia, dado não se importar com o tempo, fator que preenche o coração de ansiedade naqueles que se julgam poderosos, mas que precisam reafirmar suas condições através de demonstrações de força.
Muitos ainda confundem força com poder, sendo a primeira mero atributo do segundo. O poder nem sempre se demonstra com força. Muitas vezes o silêncio e a aceitação passiva de um acontecimento são uma manifestação mais clara de poder do que brigar ou agredir. Força é, por exemplo o que se emprega para derrubar a golpes uma porta fechada, e poder é o que aguarda pela condição mais propícia para abrir essa porta com o menor esforço possível. Força é a que deixa muitos mortos e feridos pelo caminho, e poder é o que age com sobriedade, em benefício da maior quantidade possível de pessoas, sem precisar mostrar nada a ninguém, apenas agindo a favor do Universo.
O poder não está em lugar nenhum, nem é atributo de ninguém. O poder nunca está, ele é. O poder é dado de graça ao humano que sonha e se sintoniza com o plano universal, beneficiando o maior número possível de seres e coisas.
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Segunda-feira, Agosto 16, 2004
A realidade mágica
No dia-a-dia, o insólito se atualiza anunciando aos quatro ventos que a realidade é mais fantástica do que a vã ciência explica. Toda vez que pensamos em alguém e em seguida recebemos a ligação dessa pessoa, a realidade se mostra extraordinária e derruba o arcabouço da ciência, que pretende limitar o Universo ao que os sentidos físicos percebem. Toda vez que sentimos o impulso de virar, e ao fazê-lo encontramos o olhar de alguém, também assim a realidade se mostra mágica pois indica que o olhar não serve apenas para receber impressões do mundo externo, mas também para intervir na realidade, e por isso o olhar pode ser sentido por qualquer pessoa.
Seremos mais felizes quando assumirmos que a realidade não se ajusta aos dogmas da ciência.
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Quinta-feira, Agosto 12, 2004
Nobreza
Durante muito tempo, considerou-se que, apesar de a nobreza ser um atributo concedido pelos deuses, se podia conquistar essa virtude no campo de batalha, enfrentando destemidamente o perigo. Desde então a nobreza se transformou em privilégio hereditário da aristocracia, reduzido por ela a mera formalidade hipócrita, o que a fez merecer a destruição que lhe adveio.
A majestade é disponível a todas as pessoas que se façam merecedoras dela. Quem quiser associar-se a essa luz deve demonstrar a nobreza na prática, contrapondo-se à corrente de hábitos e costumes politicamente corretos que deturpa a dignidade e exalta a vileza.
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Segunda-feira, Agosto 09, 2004
Transformar o mundo é uma ambição legítima e, para tanto, é menos eficiente demonstrar desagrado do que, em silêncio, fazer de tudo para melhorá-lo.
É mais importante entender que para transformar o mundo é necessário transformar a própria alma. Se cada pessoa melhorasse a si mesma, o mundo mudaria com uma rapidez surpreendente.
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Sexta-feira, Agosto 06, 2004
Dentre os afetos que se foram, há uma presença
que me tange de forma inefável e delicada.
Não se trata absolutamente de algum fantasma querido,
mas da sua essência que vive em mim.
Primeira figura masculina a encantar meus olhos de criança,
com seu sorriso largo, seus olhos azuis, suas mãos fortes e calejadas,
porém sempre prontas para um carinho, sua barba por fazer que
me arranhava quando lhe dava um beijo... Na memória também
ficaram seus gestos seguros, sua autoridade sutil,
sua sabedoria e sua cumplicidade.
Ele seguiu adiante preparando o caminho. Sigo suas pistas,
relembro seus conselhos a cada passo e me alegro por sentí-lo tão
presente apesar da ausência.
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Terça-feira, Agosto 03, 2004
Se algum dia alguém bater na sua porta e disser que é um emissário do destino, não acredite. Entretanto, se um dia você abrir a porta e encontrar alguém hesitando em batê-la, acredite, esse é o destino.
O destino é você abrir a porta.
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Segunda-feira, Agosto 02, 2004
"A vida não é um corredor reto e tranqüilo que nós percorremos livres e sem empecilhos, mas um labirinto de passagens, pelas quais nós devemos procurar nosso caminho, perdidos e confusos, de vez em quando presos em um beco sem saída. Porém, se tivermos fé, uma porta sempre será aberta para nós, não talvez aquela sobre a qual nós mesmos nunca pensamos, mas aquela que definitivamente se revelará boa para nós".
A. J. Cronin
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